Entrevista com Adelino Borba
Fundação da SESP
Irmão
Adelino nos conta como tudo começou.
Pergunta
— Sr. Adelino, o senhor pode nos contar como iniciou a SESP ?
Irmão Adelino — Eu, em 1955,
estava construindo uma pequena casa para mim, no terceiro Distrito de
Viamão, Passo do Feijó, (agora Alvorada). Tinha comprado um terreno (à
prestação). Nesta época eu já tinha conhecimento da doutrina
Espírita(através do Sr. Carlos Pursk), mas, como era católico, ainda não
aceitava.
Entretanto, dado à força das circunstâncias, com enfermidade no lar e
grande desespero, resolvi assistir as orientações espíritas e observei
que era realmente o que faltava em minha vida. Então comecei a ajudar a
construir a Sociedade Espírita Paulo de Tarso, na Estrada do Forte,
Vila Ipiranga, em Porto Alegre. Foi onde conheci o irmão Pedro Carlos
de Oliveira, e tivemos grandes afinidades. Juntos passamos a freqüentar
a FERGS buscando orientações para as pessoas carentes que não tinham
ninguém por elas. Fazíamos tudo o que nos era possível, quando não era
necessária a nossa presença na “Paulo de Tarso”. Nesta época, iniciamos
aqui a evangelização da infância e Juventude, ou seja, das novas
gerações. Construí nos fundos de minha casa, com retalhos de madeira,
uma pecinha de dois por quatro metros, onde fabricávamos brinquedos para
o natal da criança pobre. Esses brinquedos eram distribuídos para
crianças que nunca tinham visto sequer algum em suas mãos. Isto nos
entusiasmou muito, pois as crianças ao receberem um brinquedo em suas
mãos choravam de alegria, tal a sua pobreza e necessidade. Esses
brinquedos foram distribuídos na Paulo de Tarso por dois anos. Depois na
mesma sociedade não nos foi mais permitida a distribuição desses
brinquedos. Então o irmão Pedro Carlos de Oliveira me acompanhou para o
Passo do Feijó.
A partir daí ampliamos nossa sociedade, construindo no porão
de minha casa um lugar mais amplo onde trabalharíamos com as crianças.
Desempenhando este trabalho, certa vez o irmão Pedro Carlos
de Oliveira, teve um sonho-revelação, dizendo-me: “Irmão Adelino, sonhei
com uma árvore muito frondosa, e seus ramos estavam cheios de pombinhas
e pássaros pequenos. As pombas maiores revoavam sobre a árvore e não
tinham onde pousar.” Então, interpretando o sonho, vimos que havia uma
grande necessidade de fundarmos uma Sociedade Espírita para atender não
só as crianças, mas também os adultos em busca das coisas divinas.
Comecei,
então, a fazer a escavação no porão de minha casa, onde foram retirados
trinta e cinco caminhões de terra(isso tudo eu fazia nos meus dias de
folga). No porão foi construído um pequeno salão. Tinha sala de passes e
receituário, e um pequeno local onde funcionava a farmácia homeopática.
No dia 18
de abril de 1957, às 20 horas, iniciamos a primeira palestra nessa
casa. A partir desta data o Irmão Pedro Carlos e eu passamos a
dedicarmo-nos mais às palestras espíritas, sendo que, desde então, não
ficou um sábado sequer sem palestra, indo à FERGS e também à Santa
Casa de Misericórdia dar assistência aos necessitados.
Dado meu
horário profissional, não era possível estar no horário da noite,
ficando os trabalhos a cargo dos irmãos Pedro Carlos de Oliveira,
Elvira da Silva Borba e Sebastião Rodrigues Garibalde dos Santos.
As
palestras eram proferidas aos sábados devido à minha folga profissional.
Só foram convocados os trabalhadores quando tudo já estava pronto.
O prédio
foi feito com minhas economias. Quando começamos, tínhamos 48 cadeiras
espalhadas, uma mesa de minha varanda e um armário de cozinha
transformado em estante para livros.
Tínhamos duas salas para passes e o salão para
palestras.
Nós éramos chamados a todo instante. Não havia hora do dia e
nem da noite para atender os irmãos obsedados. Nós saíamos de bicicleta
ou de carro e, muitas vezes, de caminhão de carga. Atendíamos em locais
bem distantes, até onde nossas pernas e forças permitissem, pois íamos
também a pé. A importância do trabalho era tão grande que a casa já
estava pequena, pois ficavam muitas pessoas assistindo às palestras no
corredor ou na rua, com chuva ou frio, e, muitas vezes, até com crianças
no colo.
E, dado às grandes necessidades, resolvemos
ampliar nossa sociedade. Como não tínhamos meios suficientes, começamos
a intensificar a confecção dos brinquedos para que, além da distribuição
gratuita no natal, pudéssemos também vender o excedente para angariar
fundos e assim conseguir meios para a compra de um terreno próximo à
minha casa. Terreno esse que nos foi vendido pelo irmão João Alves
Ferreira, meu colega de trabalho na companhia Souza Cruz. Foi feita uma
transferência de contrato para esta Sociedade, onde, então, foi
construído o primeiro prédio da SESP, sendo restituído ao irmão João
Alves o valor já pago, sendo que assumi o restante das prestações pela
Sociedade. Este terreno está localizado na Esquina da Artur Garcia com
Maria do Carmo.
Pergunta
— E o receituário iniciou junto com a Sociedade
irmão
Adelino - Não. Quando ainda não tínhamos recursos no Passo do
Feijó, e muitas pessoas necessitadas nos procuravam, como trabalhava na
companhia Souza Cruz, me propus a levar os nomes e endereços e tirar
consultas para pessoas que nos procuravam. A maior parte dos
necessitados eram crianças. Levava as informações, então, na Sociedade
Bezerra de Menezes, às duas horas. Indo a pé, deixava-as com a irmã
Amália, que era a receitista daquela Casa. Os medicamentos eu pagava-os
todos do próprio bolso.
Passou-se algum tempo, não me lembro exatamente a data, em
que cheguei na Sociedade Bezerra de Menezes para esperar o
receituário e, para minha surpresa, a irmã Amália, concentrando-se no
seu trabalho, disse-me: “Irmão Adelino, o Dr. Bezerra de Menezes está
presente e falou-me que hoje tu deves tirar o receituário.” Fiquei
espantado e, com grande surpresa, quase desmaiei, mas entendi o pedido
do Dr. Bezerra de Menezes. Curvei-me com grande humildade e pedi forças
para que ele me ajudasse, porque não tinha conhecimento nenhum. Não
encontrei dificuldades.
Irmã Amália novamente concentrou-se e disse-me: Dr. bezerra de Menezes
está aqui lhe dizendo que de
hoje em diante o receituário seja feito em vossa própria sociedade, e
que ele estará sempre dando o seu apoio para a realização dos
trabalhos.”
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Adelino Borba (26/07/1927 a
02/12/2003) |
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